• Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos
    • Mineropar

       Serviço Geológico do Paraná

    Ações

    Geologia médica e Geomedicina

    Muitas das doenças que afetam os seres vivos têm um forte componente ambiental associado a uma região específica, seja natural ou produzido pelo homem.

    Quando os casos estão restritos a regiões definidas são chamados endêmicos. As moléstias podem ter diversas origens (etiologias), como a transmissão de características genéticas, alimentação, água de abastecimento, um vegetal tóxico, um animal que atua como vetor de bactéria ou vírus, uma fonte de poluição industrial ou até as rochas ou minérios da região.

    Ao estudar uma moléstia endêmica e tentar identificar sua origem, os agentes de saúde lançam mão de instrumentos de diagnóstico e análise como uma descrição detalhada das características familiares, da alimentação, do tipo de moléstia, da distribuição geográfica e das relações entre os casos da doença e as características ambientais. São realizadas análises químicas de materiais como sangue, urina, fezes, cabelos e unhas, alimentos, água e até das poeiras, solo e sedimentos dos rios.

    Para avaliar os resultados, a posição geográfica de cada amostra e dos pacientes examinados deve ser referenciada a um sistema de coordenadas de maneira precisa. Essas investigações são compreendidas na especialidade geomedicina, que é multidisciplinar, pois envolve médicos, laboratoristas e químicos, geógrafos, técnicos em sistemas de informações geográficas, especialistas em diagnósticos ambientais, agrônomos e outros.

    Quando as moléstias têm origem associada à abundância ou escassez de elementos químicos das rochas e minérios, as investigações são abrangidas pela especialidade da geologia médica. Os efeitos e impactos da geologia sobre a saúde podem ser muito complexos. Por exemplo, gases e partículas sólidas emitidas numa erupção vulcânica podem se dispersar pelos ventos por todo o planeta e causar consequências diversas à saúde.

    Muitos elementos químicos são fundamentais para o desenvolvimento sadio dos organismos, outros são tóxicos. Para alguns poucos elementos a medicina ainda não conseguiu definir o papel que eles desempenham na saúde ou na doença. É claro que todas as espécies de vegetais ou animais, incluindo o homem, necessitam ingerir doses adequadas de elementos químicos para se desenvolver com saúde e excessos ou carências podem significar o aparecimento de moléstias. Assim, os geólogos/geoquímicos buscam identificar regiões onde os elementos químicos ocorrem e qual a sua abundância, fornecendo aos médicos um importante conjunto de dados para que sejam identificadas eventuais áreas de risco para a saúde humana.

    Histórico no Paraná

    O início dos trabalhos de geomedicina no Paraná pode ser referido ao ano de 1976, quando uma equipe de médicos da Universidade Estadual de Londrina – UEL (Mauro Marzochi e colegas), publicou os resultados de pesquisa correlacionando o uso e aplicação indiscriminada de agrotóxicos com a ocorrência de câncer de fígado no norte do Paraná.

    Trabalhos no vale do Rio Ribeira realizados por pesquisadores da UEL (Monica Paoliello), da UNICAMP (Bernardino Figueiredo, Eduardo De Capitani e Jimena Andreazzini) e Instituto Adolpho Lutz (Alice Sakuma) de São Paulo, buscaram caracterizar os impactos da atividade mineral, especialmente a fundição dos minérios de Pb-Zn na região de Adrianópolis, com as ocorrências de intoxicações, câncer e malformações em seres humanos.

    Entre 1995 e1996 a MINEROPAR planejou o primeiro levantamento geoquímico sistemático do Brasil, cobrindo todo o território paranaense e seguindo protocolos estabelecidos pelo Projeto IGCP 259 – 360 - Global Geochemical Baselines (Referências Geoquímicas Globais) da UNESCO e IUGS. As 696 amostras de água coletadas pelas equipes da MINEROPAR e da EMATER foram analisadas no laboratório da CPRM do Rio de Janeiro, tendo sido determinados cátions (K, Na, Ca, Mg) e ânions (F, Cl, Br, NO2). Como resultado desse trabalho, a publicação do Atlas Geoquímico do Estado do Paraná pela MINEROPAR e Fundação Araucária representou um marco nas investigações ambientais do estado.

    Em 2001, a tese de doutoramento do geólogo da MINEROPAR Otavio Augusto Boni Licht abordou os resultados desse levantamento com múltiplas visões e propósitos, desde a geomedicina e geologia médica até o mapeamento geológico e a prospecção mineral. Nesse trabalho ficou caracterizada a associação entre altos teores de cloro e bromo (ver os mapas do Cl e Br), possivelmente produzidos pelos estoques e passivos ambientais de pesticidas utilizados no plantio de algodão e café, com altas taxas de óbito por câncer de fígado na região norte do Paraná (mapa da mortalidade por câncer). Esse resultado de geomedicina comprovou a hipótese levantada em 1970 pelos médicos da UEL, que foi anteriormente referida.

    Distribuição de teores de cloro

    Distribuição de teores de bromo


    Mapa de plantio de café 1996

    Mapa de mortalidade por câncer 1980 - 1997

    Também foi identificada uma área com cerca de 20.000 km2 no Norte Pioneiro, onde ocorrem teores elevados de flúor nas águas fluviais (ver mapa do F em águas fluviais). Pesquisadoras da UEL (Maria Celeste Morita e Luciana Cardoso) comprovaram a prevalência de fluorose dentária em vários graus de severidade, atingindo a 68% das crianças em idade escolar na localidade de São Joaquim do Pontal, município de Itambaracá (foto – fluorose dentária). Como esses teores elevados de flúor têm origem geológica, esse é um caso de investigação de geologia médica.

    Distribuição de teores de flúor

    Aspecto de efeitos de fluorose dentária

    Projeto Geomedicina

    Com os resultados positivos alcançados a partir do levantamento geoquímico, o Instituto de Pesquisa Pelé-Pequeno Príncipe – IPPP manifestou o interesse nas técnicas utilizadas nas investigações ambientais para fins de saúde pública, procurando a Mineropar para planejar e executar um novo levantamento que desse suporte geoquímico a um Projeto Geomedicina.

    Foto do Rei Pelé reunido com as crianças no Instituto Pequeno Príncipe

    Projeto Geomedicina http://www.geomedicina.org.br 

    - link para acesso ao Web mapping.
    http://geomedicina.pelepequenoprincipe.org.br




    Para atender às necessidades desse projeto, foi planejado um complexo procedimento de coleta de amostras nos mesmos locais do levantamento geoquímico realizado em 1995 e 1996 (ver fotos da amostragem e mapa das estações planejadas).

    Em cada estação de amostragem são executados os seguintes procedimentos:

    1. obtenção de coordenadas com GPS;
    2. descrição das características locais em ficha de campo (data, hora, sigla, coordenadas, denominação, material, tipo de amostra, situação, fonte da amostra, pluviosidade, volume de água filtrado);
    3. 10 parâmetros medidos na água in situ com medidor multiparâmetros como temperatura, pressão, pH, Eh, condutividade, salinidade, oxigênio dissolvido, resistividade, condutividade, sólidos totais dissolvidos;
    4. amostra de água filtrada para determinação de ânions por cromatografia iônica (F-, Cl-, NO2-, Br, NO3-, PO43-, SO42-);
    5. amostra de água filtrada e acidulada para determinação de cátions por ICP-OES (Al, As, Be, Ba, B, Cd, Ca, Co, Cu, Cr, Fe, Hg, Li, Mg, Mn, Mo, Na, Ni, Pb, Sb, Se, Sr, Si, Sn, Ti, V, Zn);
    6. membrana com o material particulado retido na filtragem;
    7. amostra de água bruta para determinação de resíduos de pesticidas;
    8. amostra de sedimento argiloso para cultura de bactérias;
    9. amostra de água bruta para determinação de alcalinidade;
    10. amostra de água filtrada para arquivo;
    11. amostra de sedimento ativo de drenagem (<1 mm).

    Até o momento já foram coletadas amostras de 405 estações, restando cerca de 280 estações para conclusão do levantamento (mapa de estações de amostragem)

    Aspectos da amostragem no campo

    Aspecto dos materiais de amostragem

    Amostragem de sedimento argiloso para cultura de bactérias

    Coleta de água filtrada

    Amostra de sedimento ativo de drenagem



    Ao final dos trabalhos de amostragem e análise, o projeto vai dispor de uma base de dados geoquímicos extremamente importante para as investigações relativas à saúde da população paranaense, especialmente das crianças. Esse projeto é único no mundo por envolver uma grande equipe multidisciplinar que atuou no planejamento dos trabalhos de campo e atuará na interpretação dos dados.

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    Links



    IUGS - International Union of Geological Sciences - A União Internacional de Ciências Geológicas é uma das maiores e mais ativas organizações não governamentais científicas do mundo, fundada em 1961, que promove e encoraja o estudo dos problemas geológicos. http://iugs.org/


    IMGA – INTERNATIONAL MEDICAL GEOLOGY ASSOCIATION – Associação Internacional de Geologia Médica. http://www.medicalgeology.org

    CPRM – Serviço Geológico do Brasil (publicações sobre geologia médica) http://www.cprm.gov.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=941&sid=41

    UNICAMP-Universidade Estadual de Campinas. Paisagens geoquímicas e ambientais do Vale do Ribeira http://www.ige.unicamp.br/geomed/geologia_medica.php

    Publicações de geologia médica - http://www.unicamp.br/unicamp/search/google?cx=009049083171732858319%3Aa8cacdtf1pk&cof=FORID%3A11&query=Geologia+M%C3%A9dica&form_id=google_cse_searchbox_form#941




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